Os últimos serão os primeiros.

21 março, 2010 por  
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Era o período da colheita para uma agroindústria que produzia vinho. O proprietário saiu à rua cedinho, nas primeiras horas da manhã, para contratar trabalhadores para colher uvas na sua vinha. Após ter combinado com os trabalhadores 40 reais por dia mandou-os para a vinha. Lá pelas nove da manhã ao andar pela praça viu outros trabalhadores que estavam ociosos à espera de serviço. Então enviou também estes para a sua vinha e acordou com eles que lhes pagaria o que fosse justo. Saindo depois ao meio-dia encontrou outros trabalhadores na mesma condição, então disse a estes o mesmo que aos anteriores: vão para a minha vinha e eu lhes pagarei o que for justo. Às três da tarde aconteceu a mesma coisa, outros trabalhadores estavam na praça à espera de trabalho e ele também os contratou prometendo-lhes o que fosse justo. No fim da tarde, às dezessete horas, próximo do término do expediente, o proprietário surpreendeu-se ao encontrar trabalhadores desempregados na praça. Então perguntou-lhes: por que vocês passaram o dia todo aí sem trabalhar? – Porque ninguém nos contratou – responderam. Acabam de ser contratados, disse o proprietário. Vamos andem, vão colher uvas na minha vinha.

No final do dia, às dezoito horas, o proprietário chamou o gerente e mandou que pagasse aos trabalhadores a começar pelos últimos. Então o gerente, a mando do proprietário, pagou aos trabalhadores da turma das cinco da tarde o mesmo que combinara com os diaristas da primeira turma, 40 reais. Quando as outras turmas vieram receber o pagamento estavam certos de que receberiam muito mais, pois os últimos trabalharam apenas uma hora e receberam quarenta, então, a turma das três horas provavelmente receberia 120 reais, a do meio-dia 240 reais e a primeira turma a fantástica quantia de 480 reais, ou seja, valores proporcionais a quantidade de horas trabalhadas.

Entretanto, todos eles receberam também 40 reais, a quantia combinada para o serviço de um dia. Então ficaram indignados e queixaram-se com o proprietário, alegando que trabalharam muito mais que os últimos e receberam a mesma coisa. Em resposta o proprietário lhes disse: não combinei com vocês quarenta reais? Por que reclamas se eu estou agindo com justiça e bondade. Eu quero dar a estes que trabalharam apenas uma hora o mesmo que dei a vocês que trabalharam o dia todo, pois na verdade, eles sofreram muito mais do que vocês. Eles passaram o dia inteiro com a angústia e a aflição de que voltariam para suas casas sem o necessário para a sobrevivência de suas famílias, ao passo que vós desde as primeiras horas da manhã já haviam sido tranqüilizados por estarem contratados. Todos merecem receber o necessário para a sua sobrevivência, pagando o mesmo a todos agi com verdadeira justiça.

A história que acabamos de ouvir foi contada a muitos e muitos anos para uma comunidade de judeus convertidos ao cristianismo. O evangelista Mateus escreveu esta narrativa para tentar explicar para aqueles cristãos o que era o Reino de Deus e qual era a lógica deste Reino. O evangelista ensinou que no Reino dos céus, os primeiros seriam os últimos e os últimos seriam os primeiros. Coisa que pareceu estranha para os seus ouvintes de formação judaica que se consideravam privilegiados diante de Deus, pois faziam parte da nação escolhida.

Talvez o grande entrave para a nossa caminhada cristã seja exatamente o fato de não termos entendido ainda qual a lógica do Reino de Deus. Não entendemos ainda como pode ser isto: os últimos serem os primeiros e os primeiros serem os últimos. O Reino de Deus, ao contrário do nosso mundo, é um Reino de igualdade, de partilha, de cooperação mútua, de convivência harmônica, inclusiva e plural. O Reino de Deus é antes de qualquer coisa um Reino de graça! Nele não há hierarquias, nem prêmios para os que demonstraram maior produtividade. A grande dádiva do Reino é a vida abundante que ele nos proporciona; é a sua libertação graciosa estendida a todos os que dela necessitam.

Viver a lógica do Reino de Deus é retribuir a todos graciosamente; é lutar para que todos tenham o necessário para uma vida digna e não simplesmente se acomodar cinicamente dizendo que se eles não tem porque não quiseram trabalhar. A lógica deste mundo exclui a todos que considera inaptos, explora as pessoas, tira-lhes a sua dignidade, transforma-os em carvão para a máquina produtiva. Não se enganem, o desemprego, a pobreza, a violência e tantos outros males existentes em nosso mundo não são pequenos defeitos do sistema capitalista, ao contrário, são necessários para a sua manutenção. É a exploração de muitos que fomenta a riqueza de uns poucos.

Proclamar a boa nova do Reino de Deus requer uma negação profunda da lógica do mundo atual e a assunção de uma postura de novidade diante dele. É preciso percorrer o caminho para a construção de um novo ser humano e um novo mundo, onde os últimos são os primeiros e os primeiros são últimos, onde ser grande é ser servo, onde a justiça e a bondade caminham juntas, guiadas pela graça e pela misericórdia.

Messias Brito

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